(Este post é permeado por uma consulta real, sem exposição da pessoa, e com o seu entusiasmado incentivo)

Se digo que o XIII induz a uma estagnação, num dado contexto, não se trata da “desconstrução de um arcano”. Tal desconstrução só é possível a quem lê as cartas numa perspectiva de arcanos, o que não é o meu caso, quando leio o tarô de Marselha. Sou mais oculista que ocultista. Não estou desco...nstruindo nada, da mesma forma que quando pratico os Katas do Karate Shotokan, não estou desconstruindo os do Goju-ryu. Não estou desconstruindo, aliás, nem de Derrida eu gosto muito, estou optando por uma forma de leitura que não se radica nas teorias ocultistas, estes que começaram a chamar as cartas de “arcanos”, estou optando por me abrir ao fato de o chão do XIII ser tomado por lodo. Não, não estou alegando que isto aqui é DEFINITIVAMENTE lodo, isto aqui é papel e tinta.

“A palavra é mineral”, João Cabral.

Eu e a cliente transformamos isto aqui em lodo, lodo até o pescoço. Não estou desconstruindo, é que a cliente me disse, depois de evocarmos o lodo, “bem que eu estou achando tudo muito morto”, e eu optei por não causar uma fissura na nossa ponte, e amarrei a carta àquela metáfora, e tudo foi saindo da gaiola graças à analogia.

Mar morto; jogo morto; ponto morto.

"Vou fechar a loja, o movimento está morto. A rua está parecendo um cemitério!"

Já foi a um cemitério?

Quando minha irmãzinha morreu, a Terra parou, meus movimentos saíam a muito custo, lama até o pescoço. Foi igual, quando meu avô.

“Estou chegando em casa morta todos os dias, ando atolada de trabalho, provas pra corrigir, turmas demais, quero sair disso, será que devo voltar a ensinar apenas 20 horas?”

E eis que sai O Carro.

Já viste um carro desatolar? É uma alegria! Mas precisa de ajuda, os cavalos...

“meu marido disse que concorda, a gente se muda para uma casa mais barata, e começa a fazer umas coisas para vender, sempre quisemos fazer bolos...”

O marido é condutor de trem.

Eu não desconstruo arcanos. Eu e meus clientes construímos imagens. Opto por, em vez de olhar as cartas como feixes de símbolos, olhá-las como límpidas lâminas, que cortam fundo, e trazem à luz símbolos frescos, vivos. Quando leio o Tarô de Marselha, os arcanos somos nós e o cotidiano. Genjokoan, chamam os zen-budistas. Dogen Zenji, o autor. Procurem. Eu vou ficando por aqui. O trem da semana resfolegando ao nosso redor. Sete dias-estações pela frente. Não nos falte camaradagem quando o lodo subir demais. De vez em quando parem tudo, e só respirem, lento e profundo, soltando tudo nas expirações. A Torre? Saiu na jogada também, nas chamas da cor dos cavalos eu li “combustível”, aquilo que é capaz de animar o movimento. “Termo”, anagrama de “morte” e “o trem”. Calor é combustível, também, hoje é dia do Sol e o céu de Salvador está cristalino. Menos gelo e apatia na tua semana, amém!

Rafael Medeiros

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